Natal, desconfortos e expectativas

 

É Natal. Tudo se mescla à nossa volta. É verão nos trópicos e, no entanto, há neves de algodão, trenós e Papais Noéis agasalhados do frio. À mesa, castanhas e nozes, alimentos adequados ao inverno. Tudo se mistura em nós, confunde sentimentos e atropela referências. Damos presentes aquém de nosso afeto e, alguns deles, além de nossas posses. O sangue que enlaça a família parece mais forte do que o amor. Em plena festa religiosa, somos movidos por um consumismo compulsório e compulsivo. O significado cristão se esconde em acenos nostálgicos demasiadamente frágeis para que Jesus logre quebrar a hegemonia mercantil de Papai Noel. Como pesa esta data para quem não a celebra liturgicamente!

 

A um canto, a árvore com seus adereços coloridos, e, à sua sombra, o presépio com o Menino na manjedoura. Mero artesanato. Ali dorme também o menino que fomos um dia, inebriado pela fé; agora, de olhos fechados, teme abraçar o apelo divino e comemorar o aniversário de Jesus.

 

Sim, há abraços e beijos, presentes que se trocam entre taças de vinho e copos de cerveja. A alegria, como olhos de mulher, é marcada por um risco de sombra: ninguém blefa no mais íntimo de si mesmo; lá, onde reside, sufocado, o nosso verdadeiro eu, aquele que sonhamos libertar um dia.

 

Sabemos que as crianças estão felizes com o novo tênis, com os jogos eletrônicos, com as bonecas que choram sem emoção e falam sem inteligência.

Quem é Jesus para esta geração que não frequenta catecismo e cujos pais têm pudor de rezar com os filhos e dar-lhes as mãos nas veredas que conduzem ao transcendente?

 

Na falta de mística, muitos, durante a adolescência, procuram o êxtase por meio de doses químicas. Sem disso terem consciência, gostariam que, atrás da seringa, por dentro da drágea ingerida, entre a fumaça ou o pó que é aspirado, Deus irrompesse.

 

Neste Natal, alguns de nós vão ao culto e oram em família. Outros preferem a solidão de um mosteiro, a missa cantada em gregoriano, todos os presentes contidos num simples gesto de carinho. 

 

Porém, o que fazer?

 

 O significado cristão se esconde em acenos muito frágeis para que Jesus quebre a hegemonia mercantil de Papai Noel.

 

A televisão universaliza a publicidade, a publicidade impregna a mercadoria de fetiche, o fetiche traz a ilusão de que os presentes, uma vez desembrulhados, irradiam felicidade. Assim, deixamos nos escravizar pelas convenções, sem ao menos indagar o que elas significam e se nos convêm.

 

Dentro de alguns poucos dias, recarregaremos a despensa e a geladeira para o Réveillon e, de novo, os mesmos abraços e afagos -com a vantagem de não dar presentes.

 

Apenas desejar boa sorte. Talvez, no íntimo, o propósito de que "daqui pra frente, tudo vai ser diferente". Beber menos, balancear a comida, deixar o cigarro, dar mais tempo à família. Ou, quem sabe, ir um passo além do próprio umbigo: uma causa solidária, uma instituição de caridade, um projeto que minore a dor dos excluídos. Preocupar-se menos com o dinheiro e ocupar-se mais com os outros.

Propósitos de renascer. Para que outros tenham vida.

Então, sim, será Natal.

 

Nascimento. Como Jesus propôs a Nicodemos, sem que seja preciso retornar ao ventre materno. Deixar que o Espírito dispa-nos do homem e da mulher velhos para nos revestir do novo ser, aquele que tem seu protótipo e paradigma no Menino que dorme no presépio e, agora, desperta dentro de nós, faminto de Deus e de justiça. 

 

Frei Beto, é religioso dominicano, escritor e assessor de movimentos sociais e pastorais da Arquidiocese de São Paulo.

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